Chile se torna o primeiro país das Américas a eliminar a hanseníase, diz OMS
05/03/2026
(Foto: Reprodução) Chile se torna o primeiro país das Américas a eliminar a hanseníase, diz OMS
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O Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) anunciaram que o Chile se tornou o primeiro país das Américas — e o segundo no mundo — a ter a eliminação da hanseníase oficialmente verificada. O reconhecimento marca mais de três décadas sem transmissão local da doença no território chileno.
Segundo as entidades, o último caso autóctone da doença no país foi registrado em 1993. Desde então, o sistema de saúde chileno manteve vigilância ativa, notificação obrigatória e preparo clínico para identificar possíveis novos casos.
A conquista foi reconhecida após uma avaliação independente que confirmou a ausência de transmissão local e a capacidade do país de detectar e responder rapidamente a eventuais casos importados.
Mais de 30 anos sem transmissão local
A hanseníase — também conhecida como doença de Hansen — foi registrada historicamente no Chile no fim do século XIX em Rapa Nui, também chamada de Ilha de Páscoa. No continente, a presença da doença foi limitada e ocorreu por introduções esporádicas.
Esses casos foram controlados principalmente por medidas de isolamento e tratamento na ilha. Os últimos casos secundários em Rapa Nui foram tratados no final da década de 1990.
Desde então, o país não registrou novos casos autóctones por mais de 30 anos.
Apesar da ausência de transmissão local, a doença nunca deixou de ser monitorada. Ela permaneceu como enfermidade de notificação obrigatória, com acompanhamento por sistemas integrados de vigilância e preparo clínico contínuo em toda a rede de saúde.
“Esta conquista histórica na saúde pública é uma poderosa demonstração do que liderança, ciência e solidariedade podem alcançar”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Segundo ele, o resultado mostra que doenças antigas podem ser superadas com compromisso político, serviços de saúde inclusivos, detecção precoce e acesso universal ao tratamento.
Avaliação internacional confirmou eliminação
A verificação foi feita após um processo conduzido pela OMS e pela OPAS a pedido do Ministério da Saúde chileno.
Em 2025, as organizações convocaram um painel independente de especialistas para avaliar se o país havia alcançado a eliminação da doença e se seria capaz de mantê-la ao longo do tempo.
A análise incluiu:
dados epidemiológicos;
mecanismos de vigilância;
protocolos de manejo de casos;
planos de sustentabilidade.
As conclusões confirmaram a ausência de transmissão local e validaram a capacidade do país de identificar e responder a possíveis casos em populações não nativas.
A ministra da Saúde do Chile, Ximena Aguilera, afirmou que o reconhecimento reflete décadas de trabalho contínuo em prevenção, diagnóstico precoce e tratamento.
Segundo ela, o país também mantém o compromisso de garantir atendimento digno às pessoas afetadas pela doença, livre de estigma e discriminação.
Vigilância e treinamento mesmo com poucos casos
Mesmo com baixa incidência, o Chile manteve ações permanentes de vigilância e capacitação de profissionais de saúde.
Entre 2012 e 2023, o país registrou 47 casos de hanseníase — todos importados, sem transmissão local.
O modelo de atendimento funciona de forma integrada:
centros de atenção primária são a porta de entrada para casos suspeitos;
pacientes são encaminhados para serviços especializados em dermatologia;
o tratamento e o acompanhamento são realizados com suporte multidisciplinar.
As equipes clínicas recebem treinamento alinhado à estratégia “Rumo a Zero Hanseníase”, da OMS. O sistema prioriza a intervenção precoce, a prevenção de incapacidades e o acompanhamento contínuo, incluindo fisioterapia e reabilitação.
Marco para a região das Américas
Para a OPAS, a conquista do Chile representa um marco regional e demonstra que a eliminação da hanseníase é possível.
O diretor da organização, Jarbas Barbosa, afirmou que o resultado reforça a importância de sistemas de saúde capazes de detectar rapidamente a doença e oferecer atendimento integral às pessoas afetadas.
Segundo ele, o avanço também ajuda a romper o ciclo entre doença e pobreza, já que a hanseníase está historicamente associada a populações vulneráveis.
Desde 1995, a OPAS e a OMS fornecem gratuitamente a terapia multidrogas — tratamento padrão para a doença — aos países das Américas, incluindo o Chile. O acesso contínuo ao medicamento é considerado essencial para curar pacientes, prevenir sequelas e interromper a transmissão.
Eliminação não significa fim da vigilância
A eliminação da hanseníase é definida como a ausência de novos casos autóctones por pelo menos três anos consecutivos após a interrupção da transmissão por cinco anos.
Mesmo após o reconhecimento, o Chile deverá manter vigilância permanente e continuar notificando casos à OMS.
Entre as recomendações feitas pelo painel de especialistas estão:
manter sistemas ativos de monitoramento;
preservar a experiência clínica para diagnóstico da doença;
designar um centro nacional de referência;
ampliar a capacitação de profissionais de saúde.
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Ela afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, as mucosas do trato respiratório superior e os olhos.
Sem tratamento, pode causar danos permanentes nos nervos e incapacidades. No entanto, a doença é totalmente curável com terapia multidrogas, e o diagnóstico precoce evita complicações.
Apesar dos avanços, a enfermidade ainda está presente em mais de 120 países e registra mais de 200 mil novos casos por ano no mundo.
Com a verificação da eliminação da hanseníase, o Chile torna-se o 61º país do mundo e o sexto nas Américas a eliminar pelo menos uma doença tropical negligenciada, juntando-se a Brasil, Colômbia, Equador, Guatemala e México.
No mundo, o Chile é o segundo país a alcançar a eliminação da hanseníase, depois da Jordânia.