Como é elaborado o indicador que capta o contraste da qualidade de vida nas cidades brasileiras
19/05/2026
(Foto: Reprodução) Vista aérea de Gavião Peixoto (SP)
Divulgação/Prefeitura
O ranking divulgado nesta quarta-feira (20) pelo instituto Imazon, em parceria com outras organizações, mostra que um município paulista com menos de 5 mil habitantes tem mais qualidade de vida do que qualquer capital brasileira, e que a diferença entre a melhor e a pior cidade do país passa de 30 pontos.
Por trás desses números está o Índice de Progresso Social (IPS), uma metodologia que se propõe a medir a qualidade de vida de uma forma diferente do PIB e do IDH.
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A ideia central do índice é simples: desenvolvimento econômico, sozinho, não significa desenvolvimento social.
Um município pode ter um PIB alto e, ainda assim, oferecer pouca qualidade de vida aos seus moradores — e o contrário também acontece.
A proposta do IPS, segundo a coordenadora Melissa Wilm, é medir o que de fato importa na vida das pessoas, em vez de olhar para o quanto foi gasto em cada área.
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🔍 O que o índice mede (e o que ele não mede)
O IPS não conta a quantidade de escolas, hospitais ou postos de saúde de um município. Ele olha para o resultado: se quem entrou na escola saiu com uma boa formação, se quem precisou de atendimento médico foi bem atendido, se as casas têm saneamento, se as ruas são seguras, se há oportunidades de trabalho e estudo.
Para isso, o índice cruza 57 indicadores sociais e ambientais, todos retirados de bases públicas como DataSUS, IBGE, Inep, MapBiomas, Anatel, Cadastro Único e Conselho Nacional de Justiça.
Os dados precisam ser recentes (no máximo cinco anos) e estar disponíveis para todos — ou quase todos — os 5.570 municípios brasileiros.
Os indicadores são agrupados em três grandes dimensões, que respondem a três perguntas diferentes sobre a vida em cada cidade:
🏥 Necessidades Humanas Básicas: pergunta se as pessoas têm o mínimo para sobreviver. Reúne indicadores de nutrição e cuidados médicos básicos, água e saneamento, moradia e segurança pessoal — como cobertura vacinal, mortalidade infantil, esgotamento sanitário, qualidade dos domicílios e taxas de homicídio.
📚 Fundamentos do Bem-Estar: mede se existem condições para as pessoas viverem mais e melhor. Entram aí o acesso ao conhecimento básico (Ideb, abandono e evasão escolar), à informação e comunicação (cobertura de internet e telefonia), à saúde e bem-estar (expectativa de vida, obesidade, suicídios, doenças crônicas) e à qualidade do meio ambiente (áreas verdes, emissões de CO2, desmatamento, focos de calor).
🎓 Oportunidades: avalia se as pessoas conseguem prosperar e exercer seus direitos. É a dimensão que mais sofre no Brasil. Reúne indicadores de direitos individuais (acesso à Justiça e a programas de direitos humanos), liberdades individuais e de escolha (acesso à cultura e ao esporte, gravidez na adolescência), inclusão social (paridade de gênero e raça nas câmaras, violência contra mulheres, indígenas e negros) e acesso à educação superior.
Vista de drone da região central de Curitiba, capital do Paraná
Roberto Dziura Jr/AEN
📊 Como a nota é calculada
Cada indicador passa por um processo estatístico que padroniza os dados — afinal, é preciso comparar taxas, percentuais, índices e valores absolutos vindos de fontes muito diferentes.
Depois, os indicadores são combinados dentro de cada um dos 12 componentes, que por sua vez formam a média de cada uma das três dimensões. A nota final do município é a média das três dimensões.
A pontuação varia de 0 a 100. Em 2026, a média do Brasil ficou em 63,40. Gavião Peixoto (SP), líder do ranking, marcou 73,10, enquanto Uiramutã (RR), última colocada, ficou com 42,44.
Para deixar a comparação mais justa, o índice ainda agrupa os municípios em conjuntos de 50 cidades com PIB per capita parecido, espalhadas por todo o país. Isso permite avaliar se um município está indo bem, mal ou na média em relação a outros com o mesmo nível de riqueza.
É essa comparação que mostra, por exemplo, que Duque de Caxias (RJ) e São Bernardo do Campo (SP) têm PIB per capita semelhante, mas notas de qualidade de vida muito diferentes — 57,87 contra 69,92.
🧭 Por que o índice é refeito todo ano
O IPS Brasil é publicado anualmente desde 2024 e usa a mesma metodologia internacional aplicada pela organização Social Progress Imperative, que calcula o índice para 170 países desde 2014.
Iniciativas parecidas existem em escala subnacional na União Europeia, no México, na Índia, nos Estados Unidos e no Reino Unido.
A versão brasileira é coordenada pelo Imazon e tem como parceiras a Fundação Avina, a iniciativa Amazônia 2030, o Centro de Empreendedorismo da Amazônia e a Social Progress Imperative.
Os dados de todos os municípios estão disponíveis no site ipsbrasil.org.br, onde é possível comparar cidades, ver o desempenho em cada um dos 12 componentes e analisar a evolução ao longo dos anos.
Mais do que um retrato do país, o índice é apresentado pelos seus coordenadores como uma ferramenta de gestão — uma espécie de bússola para orientar políticas públicas, investimentos sociais e ações da sociedade civil para as áreas que mais precisam de atenção em cada município.
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