Da copaíba ao mastruz: conheça plantas medicinais encontradas na Amazônia e os cuidados no uso
01/08/2026
(Foto: Reprodução) Veja os benefícios das plantas medicinais em chás para a saúde
Muito além dos chás caseiros e das receitas transmitidas entre gerações, as plantas medicinais da Amazônia têm despertado cada vez mais o interesse da ciência. Encontradas com facilidade em Rondônia, espécies como copaíba, andiroba, unha-de-gato e jambu são estudadas por seus compostos naturais e pelas aplicações que podem auxiliar na promoção da saúde.
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Segundo a doutora em Botânica e professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Osvanda Silva de Moura, as plantas medicinais são vegetais que possuem compostos capazes de produzir efeitos no organismo humano e que podem ser utilizados tanto na medicina tradicional quanto na produção de fitoterápicos.
"Plantas medicinais são vegetais que contêm substâncias ativas com propriedades terapêuticas capazes de prevenir, aliviar ou até mesmo tratar determinados problemas de saúde. Elas são a base da medicina natural e tradicional, podendo ser utilizadas em chás, compressas, emplastos e até mesmo como matéria-prima para medicamentos fitoterápicos e industrializados", explica.
Essas características estão presentes naturalmente nos vegetais e são resultado do metabolismo da própria espécie. De acordo com a pesquisadora, quando esses compostos entram em contato com o corpo humano, podem desencadear diferentes respostas biológicas.
"As propriedades das plantas medicinais vêm dos princípios ativos, que são compostos químicos produzidos pelo metabolismo da planta. Quando entram em contato com o organismo humano, essas substâncias interagem com as células, promovendo efeitos analgésicos, anti-inflamatórios, calmantes, diuréticos, entre outros", afirma.
Apesar de serem amplamente conhecidas pela população, essas espécies também despertam interesse da comunidade científica, que busca identificar quais compostos estão presentes em cada vegetal e de que forma eles atuam no organismo.
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Amazônia reúne centenas de espécies medicinais
Osvanda explica que muitas espécies com potencial terapêutico são encontradas em Rondônia e que a Amazônia funciona como uma verdadeira farmácia viva.
Entre algumas das variedades presentes na região estão:
unha-de-gato;
copaíba;
andiroba;
crajiru;
quina;
pracaxi;
jambu;
aroeira;
terramicina;
capim-santo;
espinheira-santa;
mastruz;
diferentes variedades de boldo.
Além das espécies nativas da floresta, muitos exemplares cultivados nos quintais também fazem parte da rotina de quem busca alternativas naturais para aliviar sintomas e complementar tratamentos.
A especialista destaca que cada vegetal possui compostos próprios e, por isso, apresenta finalidades diferentes.
Açaí também é considerado uma planta medicinal
Embora seja conhecido principalmente como alimento, o açaí também possui propriedades terapêuticas investigadas pela ciência. Segundo a pesquisadora, a espécie Euterpe precatoria reúne pelo menos 89 usos descritos em estudos científicos, com aplicações que vão além da alimentação.
De acordo com a professora, a polpa do fruto é utilizada tanto na medicina humana quanto na veterinária e apresenta ação antioxidante, auxiliando no combate aos radicais livres. Pesquisas também indicam potenciais benefícios para os sistemas sanguíneo, cardiovascular, digestivo e urinário.
Copaíba, o 'antibiótico da mata'
Entre as espécies mais conhecidas da Amazônia está a copaíba, utilizada há décadas por comunidades tradicionais e cada vez mais estudada por pesquisadores.
Segundo Osvanda, o óleo extraído da árvore concentra compostos naturais associados a diferentes aplicações terapêuticas.
"A copaíba é um poderoso extrato vegetal da Amazônia, bastante rico em sesquiterpenos e diterpenos, compostos associados a propriedades que podem auxiliar no tratamento de inflamações, infecções e processos de cicatrização", explica.
De acordo com a docente, estudos realizados por universidades brasileiras já demonstraram atividades anti-inflamatórias, antioxidantes, cicatrizantes e antimicrobianas relacionadas à espécie.
Andiroba, tesouro da Amazônia
Mudas de andiroba no Horto de Macapá
Victor Vidigal/G1
Outra espécie bastante utilizada na região é a andiroba, conhecida tanto na medicina popular quanto na indústria cosmética.
Segundo a professora, o óleo extraído da árvore possui diferentes aplicações e costuma ser empregado para aliviar dores musculares, contusões, inchaços e desconfortos associados ao reumatismo.
Além disso, pode contribuir para a regeneração da pele ao estimular a produção natural de colágeno.
"Não devemos ingerir o óleo da andiroba, porque pode causar prejuízos ao estômago e ao fígado", alerta.
Segundo ela, o uso tradicional ocorre principalmente de forma tópica. Já as folhas podem ser utilizadas no preparo de chás destinados ao alívio de alguns sintomas, desde que haja orientação adequada.
Unha-de-gato
De acordo com a pesquisadora, a unha-de-gato costuma ser utilizada para aliviar dores articulares, combater infecções e fortalecer o sistema imunológico.
Ela explica que um dos efeitos observados é o estímulo à produção de glóbulos brancos, responsáveis pela defesa do organismo.
Além disso, a espécie auxilia na proteção das células contra danos oxidativos e na redução de substâncias ligadas aos processos inflamatórios.
"O consumo, geralmente feito por meio de chá, exige atenção. O uso não é recomendado para mulheres grávidas ou lactantes, pessoas com doenças autoimunes ou pacientes que tenham passado por transplante de órgãos", ressalta.
Jambu
Jambu: folhas e flores são usadas na culinária da Amazônia
Prefeitura de Belém
Conhecido por provocar uma sensação de dormência na boca, o jambu também é considerado uma planta medicinal. Segundo Osvanda, esse efeito é causado pela presença de uma substância chamada espilantol.
O composto pode auxiliar no alívio de dores de dente, gengivite e alguns problemas digestivos. Além da ação anestésica, pesquisas investigam o potencial anti-inflamatório da espécie e possíveis aplicações nas áreas farmacêutica, odontológica e cosmética.
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Espinheira-santa e gastrite
Entre as espécies encontradas com frequência em Rondônia está a espinheira-santa. Segundo a professora, ela é bastante procurada por pessoas que buscam aliviar problemas relacionados ao sistema digestivo.
"A espinheira-santa é conhecida pela sua ação gastroprotetora e é muito procurada para auxiliar no tratamento da gastrite", conta.
A pesquisadora afirma que a espécie integra a medicina popular há muitos anos e continua entre as mais utilizadas pela população.
Capim-santo e mastruz estão entre as espécies mais comuns nos quintais
Além das variedades nativas da Amazônia, muitos exemplares cultivados em casa também fazem parte da rotina de diversas famílias.
Segundo Osvanda, uma delas é o capim-santo, geralmente consumido na forma de chá. Já o mastruz possui diferentes aplicações na medicina popular.
"O capim-santo apresenta efeito calmante e analgésico, além de poder auxiliar no combate à insônia e à ansiedade. O mastruz apresenta ação vermífuga, anti-inflamatória, expectorante e cicatrizante", afirma.
Segundo a especialista, o mastruz também costuma ser utilizada como remédio caseiro para aliviar sintomas relacionados a problemas respiratórios.
Eficácia e recomendações
A professora explica que pesquisadores buscam combater a botanofobia, termo utilizado para descrever o preconceito em relação ao estudo das espécies medicinais e a ideia de que elas não possuem comprovação científica.
Para ela, a produção acadêmica tem ampliado o conhecimento sobre os compostos presentes na flora amazônica e contribuído para fortalecer o uso seguro desses recursos na medicina complementar. Apesar dos benefícios associados a essas espécies, a professora alerta que o fato de serem naturais não significa que possam ser utilizadas sem orientação.
Segundo ela, todos os vegetais possuem princípios ativos que podem provocar reações no organismo, principalmente quando associados a medicamentos ou utilizados em excesso.
"Embora sejam naturais, as plantas possuem princípios ativos potentes, que podem alterar a absorção ou até mesmo a eficácia dos medicamentos sintéticos", alerta.
Por isso, a recomendação é informar ao médico ou farmacêutico sobre o uso de qualquer espécie medicinal, especialmente em casos de tratamento para doenças crônicas.
Segundo a pesquisadora, alguns grupos exigem atenção redobrada antes do consumo, como gestantes, lactantes, crianças, idosos e pacientes com doenças como diabetes e hipertensão.
"O fato de a planta ser natural não significa que ela pode ser utilizada de qualquer forma ou todos os dias", ressalta.
Ela também lembra que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que produtos à base dessas espécies sejam adquiridos em locais confiáveis ou em farmácias autorizadas.
Forma de preparo
Uma das formas mais comuns de utilização dessas espécies é por meio dos chás. No entanto, a pesquisadora explica que o preparo varia conforme a parte utilizada.
Quando são usadas folhas e flores, por exemplo, o método indicado é a infusão. Já raízes, cascas e outras partes mais resistentes devem ser preparadas por decocção.
"Na infusão, a gente ferve a água e depois despeja sobre as folhas ou flores da planta medicinal. Em seguida, abafa por cerca de 10 a 15 minutos. Na decocção, a gente ferve a água junto com a planta ", explica.
Segundo ela, um erro frequente é colocar folhas para ferver diretamente na água.
"Muitas vezes a pessoa coloca a água para ferver junto com as folhas. Não é a forma correta. Acaba virando apenas um chá sem a função esperada", afirma.
Além dos chás, os vegetais também podem ser utilizados na forma de xaropes, pomadas, compressas, cataplasmas, tinturas, emplastos, inalações e lambedores.
Coleta e armazenamento
De acordo com a pesquisadora, os cuidados começam antes mesmo do preparo. Ela recomenda que a coleta seja realizada apenas em locais livres de contaminação.
Também é importante observar se o material apresenta sinais de fungos, manchas escuras ou presença de insetos e larvas. A professora explica que a secagem deve ocorrer logo após a colheita para evitar a proliferação de microrganismos. Depois de secas, as espécies devem ser armazenadas em recipientes apropriados.
"As plantas devem ser guardadas em potes de vidro escuro, com tampa hermética, em local fresco, arejado e protegido da luz", orienta.
Ela também recomenda evitar panelas de alumínio durante o preparo, já que o material pode reagir com determinados compostos presentes nos vegetais.
Uso de plantas medicinais no SUS
A professora explica que o uso de plantas medicinais e fitoterápicos integra as políticas públicas brasileiras desde 2006.
Segundo ela, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares e a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos incentivam o uso seguro dessas espécies no Sistema Único de Saúde (SUS).
Ela destaca que existe uma relação nacional de espécies autorizadas para uso e que o Ministério da Saúde oferece capacitações gratuitas para profissionais interessados na área.
Planta Medicinal Terramicina ( Alternanthera brasiliana )
Osvanda Moura
Planta Medicinal e PANC Lambari-roxo ( Tradescantia zebrina)
Osvanda Moura
Professora Osvanda Moura no jardim medicinal da Unir
Acervo Pessoal