Ditadura na Amazônia: ex-preso político de 92 anos relembra prisão e tortura psicológica em presídio na antiga ‘Ilha do Diabo’

  • 24/04/2026
(Foto: Reprodução)
Ex-preso político relembra prisão e tortura psicológica em presídio na ‘Ilha do Diabo’ Orlando dos Anjos Silva tinha 30 anos quando, em abril de 1964, foi levado preso em direção à Ilha de Cotijuba, distante a 22 km do centro de Belém. Ficou mais de 30 dias trancado em uma cela, acusado de "subversão" pelo regime militar. A prisão ocorreu na casa da família, no bairro de São Brás, na presença da esposa grávida e dos quatro filhos. Primeiro, foi encaminhado para o quartel da Polícia Militar e, depois, para a ilha-presídio. Aos 92 anos, as marcas daquele passado seguem vivas na memória do economista aposentado. No meu caso, nunca me tocaram, mas a tortura psicológica, essa acontecia. A gente não sabia o que ia acontecer, porque naquela época a gente esperava de tudo Em abril de 2026, completam-se 62 anos do golpe militar de 1964 no Brasil. Orlando, vítima do regime na Amazônia, recebeu reparação econômica e foi declarado anistiado político em 12 de maio de 2015, pela Portaria nº 361: um reconhecimento oficial de perseguição política. ✅ Clique e siga o canal do g1 PA no WhatsApp A história por trás das ruínas do antigo presídio de Cotijuba, que recebeu presos políticos, começa em 1930, com a Colônia Reformatória; passa pelo Educandário Nogueira de Faria, na década de 1950; e termina com a Colônia Penal durante a ditadura militar (1964-1985). À esquerda, foto mostra o Educandário Nogueira de Faria, na década de 1950; À direita, foto mostra as atuais ruínas de Cotijuba, em março de 2026. Initial plugin text Pesquisadores afirmam que, mesmo com a troca de nome, a estrutura de terror e castigo físico iniciada em 1930 em Cotijuba foi intensificada no regime militar para servir ao controle de presos políticos e comuns. Após 62 anos, Orlando jamais voltou ao local onde perdeu a liberdade e era chamado de “Ilha do Diabo/Inferno”, pelos constantes casos de torturas, revoltas e desaparecimentos. Nos dias atuais, a Ilha de Cotijuba se tornou um destino turístico com praias muito frequentadas em feriados e nas férias escolares. Fica a cerca de uma hora de barco da parte continental da cidade. As ruínas do presídio e as histórias dos presos políticos atualmente são memórias de um passado. Do quartel à viagem noturna Pesquisas dos historiadores Jaime Cuéllar e Pere Petit apontam que, nos primeiros meses após o golpe de 1964, mais de 300 pessoas foram presas por razões políticas no Pará. Ilha-Presídio de Cotijuba: Local de repressão da ditadura na Amazônia Por volta das 20h, em abril de 1964, policiais militares foram até a casa de Orlando, então aluno da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Atuariais. Reviraram a casa todinha pra ver se eu tinha arma, qualquer coisa que pudesse me incriminar, mas a única coisa que eu tinha eram livros. Nessa época eu já lia bastante Uma parte dos livros foi confiscada pela polícia, e o que sobrou foi queimado pelo padrasto, com medo de novas investidas de agentes da ditadura. Segundo o aposentado, ele suspeitava que seria preso porque os militares já tinham conhecimento da atuação política dele como universitário. Dois Inquéritos Policiais Militares (IPMs) de 1965 citam Orlando: o 709 e o UNE-UBES, criados para investigar e reprimir opositores, listavam estudantes tachados de "subversivos" - veja abaixo: IPM 709 (Inquérito Policial Militar nº 709) foi um dossiê instaurado em 1964 para investigar opositores políticos. Acervo digital do MPF sobre a ditadura. O historiador Jaime Cuéllar, membro da Comissão Estadual da Verdade do Pará, explica que as prisões do regime militar funcionavam para reprimir vozes contrárias e eram ilegais, pois negavam o direito à ampla defesa, ao contraditório e à justiça imparcial. Da casa onde ainda vive, no bairro de São Brás, Orlando foi levado para o Batalhão da Polícia Militar, na esquina da rua Gaspar Viana com a avenida Assis de Vasconcelos. Lá, ficou em um “cubículo” junto com outros presos por cerca de cinco a sete dias. “Eles me chamavam de subversivo. A ‘revolução’ e seus comparsas qualificavam tudo como subversivo e, no código da ditadura, [...] isso era contra a lei”, afirma. 🔎 A noção de "subversão da ordem política e social" foi usada pelo regime militar como um mecanismo para investigar e prender opositores. Cerca de uma semana depois, Orlando e outros presos foram levados a uma embarcação ancorada na Baía do Guajará - que contorna parte da capital paraense. Em uma viagem noturna, o jovem estava a caminho da ilha de Cotijuba, local para onde até os presos comuns tinham medo de ir. Ele conta que, ao desembarcar na ilha-presídio e se deparar com um batalhão da Polícia Militar portando armas de grosso calibre, pensou que seria “maltratado” fisicamente. “Fiquei com medo, porque eu não sabia o que ia acontecer. Ninguém sabia nada”, comenta. Orlando dos Anjos Silva, economista aposentado que foi preso pela ditadura militar, em 1964. TV Liberal Jaime Cuéllar diz que Cotijuba, terceira maior das 42 ilhas de Belém, servia, naquela época, como “extensão da ideia de confinamento”, com o propósito de causar isolamento como forma de castigo e disciplina. Durante a prisão, Orlando diz que foi levado para Belém três vezes para prestar depoimento na 5ª Companhia de Guardas, atual prédio da Casa das Onze Janelas e um dos principais locais de interrogatório de opositores políticos na capital paraense. No período em que esteve na ilha-presídio, a mulher grávida e os quatro filhos de Orlando foram amparados por amigos da faculdade. Durante mais de um mês, ele ficou sob a custódia da ditadura, respondendo a cinco Inquéritos Policiais Militares. Perda do emprego e anistia O aposentado lembra que foi solto porque "não havia condicionante legal" para mantê-lo preso. De volta à sua casa, junto à mulher e aos filhos, Orlando recebeu mais uma punição da ditadura: teve o emprego nos Correios cassado pelo Ato Institucional nº 1 (AI-1). O g1 teve acesso a um documento do Fundo do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no Arquivo Público Mineiro, que contém registros de repressão política. A pasta mostra a relação de pessoas atingidas pelo AI-1, que deu poderes para cassar, suspender e demitir opositores políticos. Orlando foi demitido do Departamento de Correios e Telégrafos em 9 de outubro de 1964, por ordem do presidente militar Castello Branco. LEIA TAMBÉM: O golpe militar de 1964 O perfil das vítimas da ditadura Como funcionava o controle na ditadura A prisão e a abertura de inquéritos policiais, conta o economista, dificultavam a empregabilidade de quem era visto como "inimigo" do regime militar. Ele diz que, após ser solto, “passou o restante da sua vida trabalhando para dois de seus antigos professores”. Um escritório de economia em Belém costumava absorver profissionais perseguidos pelo regime militar. Foi ali que Orlando conseguiu se manter profissionalmente e sustentar a família. Em 12 de maio de 2015, por meio da Portaria nº 361, publicada no Diário Oficial da União, Orlando recebeu indenização de R$ 100 mil e foi declarado anistiado político. O economista aposentado recebe também pensão mensal pela demissão ilegal nos Correios em 1964. Quando questionado se viveu com medo, o senhor de 92 anos responde: "Eu soube conduzir minha vida. Não fui arrastado pelo que aconteceu". Cotijuba: de colônia reformatória a “Ilha do Diabo” Sandoval de Queiroz Barbosa (sindicalista) e Humberto de Lucena Lopes (secretário do Partido Comunista) são outros dois nomes de presos políticos enviados para Cotijuba. As prisões de Humberto Lopes foram relatadas durante audiência da Comissão Nacional da Verdade, em 29 de agosto de 2012, em Belém. Já os registros de Sandoval Barbosa constam em arquivos da Comissão Geral de Investigações do Exército, de 1964. Nomes como Sandoval, Humberto e o próprio Orlando mostram que a ilha-presídio de Cotijuba foi um dos pontos de encarceramento de presos políticos na Amazônia. Mas, segundo os pesquisadores Sid Quaresma e Odimar Melo, a história de violência e tortura do lugar conhecido como “Ilha do Diabo/Inferno”, na ditadura, começa bem antes. Sid já trabalhou na ilha e tem uma pesquisa sobre Cotijuba pela Universidade do Estado do Pará (Uepa). Ele conta que a ideia de transformar o local em um espaço para detenção de pessoas começou em 1930, com a instalação de um reformatório/prisão juvenil. “A Colônia Reformatória de Cotijuba aparece para a sociedade da época como uma alternativa ao problema da delinquência, abandono e pobreza. [...] Mas, a partir desse momento, a ilha já começa a ser vista como um local de exílio, sofrimento e distância”, diz. Entre as décadas de 1940 e 1960, a Colônia Reformatória mudou de nome para Educandário e passou para a administração do governo do Estado. O público-alvo, porém, será o mesmo: jovens abandonados e “delinquentes” do sexo masculino, de 12 a 21 anos. Em 1945, a ilha recebe mais uma prisão instalada em outra parte de Cotijuba: uma colônia penal chamada Instituto de Reeducação Social, destinada a presos adultos de menor periculosidade. “A ideia era transformar a Ilha de Cotijuba, integrando os projetos das colônias Reformatória (1930) e Penal (1945), numa espécie de ‘Ilha da Redenção’ da juventude desvalida e de adultos de terrível destino”, explica Sid. À esquerda, a Colônia Reformatória de 1930; À direita, as ruínas do presídio, em 2026. Initial plugin text Nascido em Cotijuba, o professor Odimar Melo realizou, em 2010, uma pesquisa sobre a ilha pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Segundo ele, durante o governo do major Alacid Nunes (1966-1971), o Educandário é transformado em presídio. “Quando o espaço ganha o status de presídio para receber presos de alta periculosidade, as torturas e violações de direitos continuam acontecendo, mas de uma forma muito mais violenta”, afirma. Odimar diz que as ruínas históricas da ilha de Cotijuba acolheram, ao longo do tempo, diferentes instituições: Colônia Reformatória, Educandário, Presídio - "todas ligadas à correção e repressão de direitos". A intensificação da violência sobre crianças, jovens e adultos que eram enviados para Cotijuba fez com que o local fosse chamado de “Ilha do Diabo” pelos jornais e sociedade da época - veja abaixo: Jornal "O Liberal" de 1951 “Cotijuba recebeu esse adjetivo ruim, negativo, o que acabou prejudicando e depreciando a imagem do local. ‘Ilha do Inferno/Diabo’ remetia ao sofrimento, porque havia castigos, mutilações e até mortes”, comenta Odimar. Entre 1977 e 1978, em meio a casos de revolta de internos, o governo decidiu fechar o presídio de Cotijuba, local que recebeu jovens infratores, adultos de alta periculosidade e presos políticos. Hoje anistiado político, Orlando dos Anjos Silva revela que pensa em rever a antiga ilha-presídio de Cotijuba. Os quase cem anos de vida e a fragilidade da idade, porém, impõem desafios para reviver essa lembrança. Tenho vontade de voltar. A impressão é que está tudo modificado. Talvez nem reconheça onde fiquei VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará Confira outras notícias do estado no g1 PA

FONTE: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/04/24/ditadura-na-amazonia-ex-preso-politico-de-92-anos-relembra-prisao-e-tortura-psicologica-em-presidio-na-ilha-do-diabo.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

No momento todos os nossos apresentadores estão offline, tente novamente mais tarde, obrigado!

Top 5

top1
1. Raridade

Anderson Freire

top2
2. Advogado Fiel

Bruna Karla

top3
3. Casa do pai

Aline Barros

top4
4. Acalma o meu coração

Anderson Freire

top5
5. Ressuscita-me

Aline Barros

Anunciantes