O negro e neto de escravizado que explicou os 'Quatro Brasis': quem foi Milton Santos, o maior geógrafo brasileiro
04/05/2026
(Foto: Reprodução) Milton Santos estaria completando 100 anos esta semana.
Saint-Dié-des-Vosges via Wikimedia Commons via BBC
Em 1994, o brasileiro Milton Santos (1926-2001) foi laureado com o prêmio internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Até hoje, ele é o único pesquisador latino-americano a obter tal reconhecimento.
Esta é uma amostra da relevância global do geógrafo Milton Almeida dos Santos, um dos maiores intelectuais do século 20.
Negro e neto de um escravizado, o baiano de Brotas de Macaúbas nasceu há 100 anos — lembrados em 3 de maio deste ano — e se tornou figura fundamental no entendimento do Brasil e do mundo globalizado.
Um dos editores do livro Milton Santos: A Pioneer in Critical Geography from the Global South ("Milton Santos: um Pioneiro do Sul Global em Geografia Crítica", em tradução livre), o geógrafo Lucas Melgaço, professor na Vrije Universiteit Brussel (VUB), situa as contribuições do brasileiro como "essenciais para a geografia" — e que vão "além dela".
"Embora bastante disciplinar, no sentido de que ele se preocupava em repensar o que era a geografia, seu objeto e o trabalho do geógrafo, ele conseguiu ultrapassar os limites da disciplina, tornando-se uma referência para várias ciências sociais", contextualiza Melgaço.
"Ele deixou vários legados. Acredito que a principal contribuição de Milton Santos para as ciências sociais, no Brasil e no mundo, foi a construção de um método, um conjunto de conceitos e teorias coerentes, que se complementam e se transformam em ferramentas poderosas para compreender o mundo contemporâneo", acrescenta.
"Ele não criou apenas neologismos, algo comum na academia hoje, muitas vezes ligado ao ego dos pesquisadores buscando crédito por ideias que outros já trabalharam, mas revisitou termos existentes ou criou novos, de uma forma que eles dialogam entre si."
Milton Santos se destacou por seus estudos a respeito da urbanização no Terceiro Mundo e pelas pesquisas a respeito da globalização. Ele também criou uma proposta teórica de regionalização do país em quatro regiões, batizadas de "Quatro Brasis".
Levando em consideração as diferenças de infra-estrutura e o suporte a redes de informações, mercadorias, capitais e pessoas entre os Estados, ele propôs uma visão sobre o Brasil considerando a região amazônica, a região nordeste, a região centro-oeste e a região concentrada.
Pela sua definição, a região amazônica conteria os Estados do Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Amapá — conjunto de unidades com pouca densidade demográfica e escassos centros urbanos.
A concentrada seria a área que englobaria os Estados do Sul e do Sudeste brasileiros, centro tecnológico do Brasil, com urbanização densa e intenso desenvolvimento científico e comercial.
O nordeste de Milton Santos é muito parecido com a região oficialmente chamada de Nordeste, compreendendo Zona da Mata, Agreste, Sertão e Meio-Norte.
Seria uma área dependente do turismo — no litoral —, com indústrias sobretudo na Zona da Mata e uma base subdesenvolvida agropecuarista no interior.
Por fim, o centro-oeste de tal divisão abrange Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, uma região voltada para a agropecuária mas com desenvolvimento tecnológico comparável à região concentrada.
"Essa divisão proposta por ele do Brasil mostra não só a base física, mas as regiões como palco de uma série de relações e conflitos, com suas diferenças não só nas geografias física e humana, mas na própria relação entre estados, elites e poder econômico, impactando nas pessoas que ali vivem", pontua o o geólogo Marco Moraes, autor do livro Planeta Hostil.
Biografia
Santos nasceu na Chapada Diamantina. Tantos seus pais como seus avós maternos eram professores primários — e foi com eles que o garoto aprendeu a ler e a escrever. Seu avô paterno havia sido escravizado.
Quando entrou para o internato do Instituto Baiano de Ensino, aos 10 anos, tomou gosto pela geografia, influenciado por um professor. Cursou direito na Universidade Federal da Bahia — graduou-se em 1948. Durante a faculdade, militou em grupos estudantis de esquerda.
Formado em direito, prestou concurso para professor de geografia. Acabou indo embora para Ilhéus, onde deu aulas no colégio municipal. Lá trabalharia como jornalista para o jornal A Tarde.
Desta passagem nasceria seu livro Zona do Cacau.
Mais tarde, Santos se mudaria para Salvador, onde se tornou professor na Universidade Católica em 1956. Foi convidado a fazer seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França — concluído em 1958.
Sua carreira ascendia no início dos anos 1960. Tornou-se livre-docente na Universidade Federal da Bahia e, como editor do jornal A Tarde, viajou a Cuba na comitiva do então presidente Jânio Quadros (1917-1992).
A convite do governo estadual da Bahia, tornou-se presidente da Comissão de Planejamento Econômico.
O golpe militar de 1964, contudo, interrompeu sua trajetória.
Santos foi preso pelo regime e, em seguida, exilou-se na França. Trabalhou na Universidade de Toulouse e, depois, em Sorbonne.
Em 1971 trocou Paris por Toronto, no Canadá. Ele havia aceitado a proposta para se tornar professor na principal universidade de lá.
Em seguida, tornou-se pesquisador no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Aí nasceu sua amizade com o famoso sociólogo americano Noam Chomsky.
Também foi nessa época que Santos preparou sua obra mais importante, O Espaço Dividido, que seria publicada em 1979.
O geógrafo trabalhou ainda na Venezuela, em missão da ONU, e no Peru, na Universidade de Lima.
Ainda moraria dois anos na Tanzânia, onde criou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam.
Antes de voltar ao Brasil ainda passaria novamente pela Venezuela e pelos EUA — com uma temporada na Universidade Columbia, em Nova York.
No retorno ao país, já na segunda metade dos anos 1970, Milton Santos trabalhou como consultor do governo estadual de São Paulo e na Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).
Por alguns anos, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1984, foi contratado pela Universidade de São Paulo, onde seguiria até o fim da vida — mesmo após ter se aposentado, em 1997.
Para o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (FESPSP), Milton Santos se tornou um autor fundamental na geografia porque "ele reviu o conceito de globalização", percebendo como o fenômeno, operado "pelo modelo neoliberal", produz desigualdades entre centro e periferia.
"Ele desejou uma globalização mais humanizada, pensando nas periferias e em como um processo de acumulação capitalista poderia contribuir para a maior distribuição de renda", diz Ramirez.
"É um autor lapidar, fundamental em todo o mundo, para podermos entender as contradições do processo de globalização", afirma Ramirez.
Melgaço argumenta que o pensamento de Santos "permanece relevante para entender o presente".
"De forma mais concreta, talvez a sua concepção de que o espaço geográfico não é apenas o palco das ações humanas, mas um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações seja um de seus principais legados", explica o professor.
"Grande parte de sua teoria gira em torno dessa ideia central, principalmente na última fase de sua vida acadêmica. Também é altamente relevante sua visão de que a geografia funciona como uma filosofia das técnicas. Esse conceito, por vezes abstrato e complexo, é fundamental para entender o período atual, incluindo as perversidades da globalização, as desigualdades técnicas, as opacidades dos territórios, as contrarracionalidades e as inventividades dos espaços que ele chamava de hegemonizados."
Para Melgaço, há um otimismo na obra de Santos. Não era ingênuo, mas "muitas vezes provocador", às vezes "até um pouco ácido". "Ele não tinha medo de causar desconforto ou de fazer as pessoas pensarem", diz.
"Isso porque sua teoria frequentemente convida à ação, não necessariamente militante, mas uma ação que desafia estruturas. Acho que esse foi a origem de seu otimismo, já que ele via possibilidades de mudanças, muitas vezes vindas de lugares marginalizados, dos de baixo, do sul global. Ele inclusive fala da globalização como um conjunto de possibilidades", afirma Melgaço.
Professor na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), o geógrafo Cristiano Nunes Alves ressalta que a "potência e a força" da obra de Milton Santos estão no fato de que suas ideias são "aplicáveis".
"Ele nos traz um conjunto de ferramentas teóricas e metodológicas que efetivamente podem ser aplicadas na análise dos territórios, na análise espacial", afirma.
"Sua obra tem um fundo filosófico muito claro e presente, mas, ao mesmo tempo, não está apartada da concretude", define Alves. O geógrafo destaca o papel de Santos ao situar a informação como força que move os territórios.
Negritude
A questão negra, se não foi central em seu trabalho, permeava suas preocupações de maneira constante.
"Embora ele não tenha teorizado no sentido amplo sobre a questão de raça, sua perspectiva de homem negro está em todo o seu trabalho", argumenta Alves.
"Ele dá ferramentas para pensar e para ler a formação social brasileira com o elemento racial como estruturante de nossa história territorial."
"Quando ele traz à tona situações das populações pobres e das periferias, ele chama a atenção para os subalternos. Sabemos quem são os subalternos: as mulheres, os indígenas e os negros", ressalta Alves.
"Ele, por várias vezes, refletiu sobre a questão racial e, sobretudo, sobre o fato de ser um intelectual negro no Brasil, numa universidade elitista e pouco diversa. Mas a questão racial não foi central na sua elaboração teórica", diz Melgaço. "Ele sempre buscava ver a questão racial dentro de uma estrutura mais ampla e complexa."
O professor lembra que Santos era favorável às cotas, embora enfatizasse que só elas não bastavam — era preciso que fossem acompanhadas de iniciativas que dessem aos negros devidas condições de sucesso acadêmico. "E isso tinha a ver com mobilidade, comida, lazer, descanso e tudo o mais", explica.
"Ele dizia que não era um especialista na questão negra, mas que a questão negra era a sua história", pontua Melgaço. "Há relatos dele, mas principalmente dos seus colegas, das inúmeras vezes que o racismo o impediu de acessar cargos e posições dentro e fora da academia."
Essa postura muitas vezes fazia de Santos uma pessoa percebida de forma ambígua pelos ativistas de seu tempo. "Por vezes, era criticado por, na visão de alguns, ser demasiadamente isento ou tangencial no assunto", diz Melgaço.
"Mas, na minha opinião, acho que era uma visão um pouco simplista do que realmente pensava Milton Santos. Para mim, parecia que ele se preocupava com transformações estruturais e que a questão negra fosse parte de mudanças mais profundas."
"Ele tinha bastante consciência sobre o papel de um intelectual negro no mundo acadêmico. Viveu na pele o racismo da sociedade. E, obviamente, tinha uma percepção muito mais claras sobre essa relações, trazendo suas contribuições sobre como enxergar e fazer as políticas públicas que visam a fortalecer os direitos humanos, direitos sociais e as próprias políticas", acredita Ramirez.
No mundo
O geólogo Moraes comenta que Milton Santos deveria "ser muito mais celebrado e reconhecido no Brasil".
"Não só por sua história, de um negro de origem humilde que ganhou o principal prêmio da geografia, mas pela contribuição incrível de seu trabalho", afirma.
"Sua compreensão de espaço geográfico não como substrato inerte para atividade humana, mas como coisa dinâmica que influencia e é influenciada pela atividade humana, é essencial", diz Moraes. "Permite analisar a geografia como interação permanente e contínua."
"Ele analisou as relações e a configuração geográfica a partir das periferias. Tanto das desigualdades sociais e regionais dentro do Brasil como das periferias do mundo", analisa Moraes.
"Olhar a geografia não do ponto de vista eurocêntrico é uma contribuição importante. E ele fez isso enquanto intelectual negro."
"Ele criticou a globalização. Nisso foi visionário. Desmistificou o fenômeno, de coisa boa que integraria o mundo, mostrando que há muitos excluídos do processo, prejudicados", explica Moraes.
Por outro lado, Santos enxergou possibilidades para o fenômeno. "Se nos unirmos e encararmos a globalização de outra forma, ela pode ser uma coisa boa, inclusive uma forma de reação às elites dominantes."
"A obra de Milton Santos tem como principal legado o entendimento do espaço geográfico. Com os seus estudos, ao teorizar o espaço como um sistema de objetos e ações, a geografia começa a se debruçar também sobre as atividades humanas e as relações econômicas, deixando de se fixar majoritariamente no estudo da paisagem e aumentando sua interdisciplinaridade", contextualiza o relações públicas Breno Costa, estudioso da obra de Santos e pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Segundo ele, no sistema de Santos, os objetos e as ações humanas estão interligados na formação das cidades e regiões. "Portanto, seus trabalhos criaram uma escola de pensamento bastante complexa e rica de conceitos", aponta.
"Ele se esforçou em entender, sobretudo, os países subdesenvolvidos e as formas de urbanização precárias", diz Costa. "Foi um crítico incansável do fenômeno da globalização."
Para o geógrafo, o mecanismo age como "um motor de desigualdades", tendo um impacto perverso para o países do Sul Global. "Entender isso tem um impacto muito grande na escolha do papel que o Brasil deve ter em um sistema mundial de produção e consumo", afirma.
Há uma redescoberta da obra de Santos no exterior, sobretudo no mundo anglófono. Nesse cenário, o trabalho de Melgaço é fator de destaque.
Em 2017, em parceria com o acadêmico canadense Tim Clarke, ele lançou a tradução em inglês do livro Por Uma Outra Globalização, do geógrafo brasileiro.
No mesmo ano, foi publicada uma coletânea em inglês, de artigos sobre o trabalho de Santos.
De lá para cá, outras obras do geógrafo também ganharam versões em inglês, como A Natureza do Espaço e Por Uma Geografia Nova.
Os estudos de Santos seguem atuais. "Ajuda a entender os problemas contemporâneos", diz Costa. Ele faz um exercício observando o que acontece hoje com as grandes empresas de tecnologia. Segundo o pesquisador, o Vale do Silício acaba servindo com "um centro produtor de tensões, intencionalidades e ideologias, espalhando seu modo de pensar por todo o planeta".
"Nesse caso, a América Latina acaba se tornando mera consumidora desse conjunto de técnicas, criando-se aqui uma psicosfera, uma forma de pensar e um conjunto de valores que foram inoculados em nós por esses Cavalos de Troia", analisa ele, sob uma perspectiva da teoria de Milton Santos.