Polícia Civil investiga morte de idoso após família denunciar negligência médica na Santa Casa de Angatuba
06/08/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Civil investiga morte de idoso após família denunciar negligência médica
A Polícia Civil investiga a morte de um idoso de 79 anos após a família denunciar que ele foi vítima de negligência médica na Santa Casa de Angatuba (SP), em 16 de julho. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) também apura o caso.
Ao g1, o filho da vítima, Cláudio Henrique Negrizoli, contou que o pai, Anésio Negrizoli, deu entrada na Santa Casa após ser encontrado por familiares vomitando sangue. Segundo ele, o idoso permaneceu em observação por cerca de seis horas e, em seguida, recebeu alta médica.
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Anésio morreu aos 79 anos
Arquivo pessoal
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"Meu irmão levou meu pai ao hospital com a ajuda da minha mãe às 16h30. Quando ele deu entrada na Santa Casa, deram remédios sintomáticos para ele, ou seja, para cessar o vômito, além de analgésicos para dor. Ele foi liberado por volta das 22h, durante esse período ficou somente sob observação", conta.
Cláudio, que também é médico, alega que o caso foi tratado erroneamente justamente pelo idoso ter sido liberado e voltado para casa. Ele pontua que o pai era um paciente com múltiplas comorbidades, como hipertensão, problemas no coração e sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).
"Ele teve um AVC dois anos antes e tudo isso estava colocado na ficha médica. Um paciente de 79 anos deve ter todo o histórico investigado, o motivo do sangramento, se há alguma úlcera perfurada ou algum tipo de câncer. Foi dado alta para ele mesmo assim, apenas com remédios sintomáticos", descreve.
Devido à gravidade dos sintomas, Anésio precisou retornar à unidade hospitalar duas horas depois da alta médica. Na segunda vez, ele passou por uma série de exames e, segundo Cláudio, foi constatada uma infecção bacteriana grave.
"O exame de urina do meu pai estava com uma grande quantidade de leucócitos, sendo que essas células só aparecem quando o organismo está tentando combater uma bactéria. Junto ao vômito com sangue, isso mostra a gravidade da infecção bacteriana", pontua.
O g1 teve acesso aos exames do idoso, que, além de constarem as comorbidades de Anésio, apontaram uma hemorragia digestiva alta. Junto ao sangramento, o responsável pelo laudo categorizou o quadro clínico da vítima como uma suspeita de Infecção do Trato Urinário (ITU).
"O exame físico consta que, na verdade, quem fez foi a enfermagem. No relatório consta que ele estava com o abdômen doloroso, e era para o médico ter visto isso. Dessa forma, já seria verificado que o problema era de foco intestinal", afirma o filho.
Anésio deu entrada no hospital vomitando sangue
Reprodução
Cláudio comenta que, por também ser médico, chegou a redigir uma sugestão ao profissional responsável por cuidar do pai. No entanto, o pedido foi entregue pela esposa de Anésio que, de acordo com o filho, foi mal recepcionada pelo médico.
"Eu redigi uma sugestão ao doutor que atendeu porque, por ele ser o plantonista, eu não posso intervir e ele tem o livre arbítrio, respondendo pelo que faz. Sugeri uma internação e uma endoscopia e, quando minha mãe chegou ao hospital com o meu pai, ele nem admitiu a hipótese de ver o que eu tinha escrito. Tratou-a de forma hostil, perguntando se ela queria ensinar ele a ser médico", relata.
Depois dos exames, Anésio permaneceu em observação no hospital por mais 12 horas. Durante todo o período, o idoso continuou sendo tratado com os remédios sintomáticos que havia recebido durante a primeira ida à unidade, segundo a família.
"Ele continuou tratando o vômito, mas não a infecção, que foi a real causa da morte do meu pai e está apontada na certidão de óbito. O vômito era apenas um dos sintomas da infecção generalizada. O médico deu entrada com antibiótico somente 18 horas depois", relata.
Cláudio diz que o médico responsável solicitou a transferência de Anésio para outra unidade hospitalar da região, mas todas recusaram. O filho afirma que o paciente deveria ter sido transferido por meio de uma vaga zero da Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), mecanismo utilizado para garantir atendimento em hospitais de maior complexidade.
Segundo os familiares, o procedimento não foi adotado, o que teria atrasado o diagnóstico e o tratamento. O idoso foi encaminhado a um hospital de Itapetininga (SP) no dia 17 de julho, no período da tarde.
"Quando ele chegou na segunda unidade, já fizeram uma tomografia nele e constataram uma isquemia mesentérica, que é a redução ou interrupção do fluxo de sangue nas artérias ou veias que irrigam os intestinos", compartilha.
Caso ocorreu na Santa Casa de Angatuba (SP)
Google Maps/Street View/Reprodução
Por causa do quadro clínico agravado, o paciente foi submetido a uma cirurgia de emergência. Anésio morreu durante o procedimento, que constatou que boa parte do intestino já havia necrosado.
"Ele passou por uma laparotomia exploradora, que eu acompanhei. Quando a barriga foi aberta, o intestino estava todo preto, necrosado, incompatível com a vida. Não tinha como fazer mais nada. Foi uma sequência de erros que aconteceram", lamenta o filho.
Cláudio Henrique afirma que espera que a justiça seja feita em memória do pai e que, com o caso de Anésio, outros médicos passem a adotar diferentes condutas de atendimento aos pacientes.
"Eu vejo muitos colegas que sequer tocam os pacientes, atendem-os de cabeça baixa e chegam a ser ríspidos com eles. Não quero que o médico seja punido. A única coisa que eu queria era uma justiça no sentido de uma melhora na área da saúde. Como médico, vejo que esse descaso existe principalmente na saúde pública."
O que dizem os envolvidos
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que um boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de Angatuba no dia 29 de julho. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil desde então.
Já o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) afirmou, também via nota, que o caso está sendo investigado internamente pelo conselho. As apurações estão correndo sob sigilo por determinação da lei.
A Santa Casa de Angatuba também foi procurada pelo g1 para um posicionamento referente ao caso, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
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