Quatro críticos musicais são perfilados em livro sobre a arte de escrever sobre cantores e discos em campo minado
28/04/2026
(Foto: Reprodução) Ezequiel Neves (no alto, à esquerda), Júlio Medaglia (no alto, à direita), Sérgio Cabral (de camisa verde) e Zuza Homem de Mello são enfocados no livro 'Meu odiado crítico'
Divulgação e reprodução / Montagem g1
♫ CRÍTICA DE LIVRO
Título: Meu odiado crítico
Autores: Textos de Ezequiel Neves, Júlio Medaglia, Sérgio Cabral e Zuza Homem de Mello com organização e perfis de Miguel de Almeida
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ O título do livro “Meu odiado crítico” soa provocativo como os títulos das mais ferinas críticas musicais publicadas na imprensa ao longo dos últimos 70 anos, período que abarca o nascimento e desenvolvimento do jornalismo cultural.
Afinal, os quatro críticos musicais enfocados pelo jornalista Miguel de Almeida – organizador do livro publicado pelas Edições Sesc com seleção de textos destes críticos e perfis inéditos de cada um, escritos por Almeida – sempre foram alvos de mais amores do que ódios no exercício de uma profissão que exige equilíbrio delicado na sustentação de opiniões que, por qualquer razão, justa ou injusta, pode afrontar egos de cantores, compositores e produtores musicais.
Três dos quatro críticos perfilados no livro – Ezequiel Neves (29 de novembro de 1935 – 7 de julho de 2010), Sérgio Cabral (17 de maio de 1937 – 14 de julho de 2024) e Zuza Homem de Mello (20 de setembro de 1933 – 4 de outubro de 2020) – já saíram de cena, o que permite análises completas, e em perspectiva, do legado de cada um.
Apenas o maestro e compositor Júlio Medaglia, de 88 anos completados em 16 de abril, permanece em atividade, eventualmente polemizando, como ao sentenciar, em dezembro de 2024, que “qualquer idiota pode fazer funk, rap e pop”.
No texto que escreveu para a introdução do livro, “O artista da crítica”, o autor Miguel de Almeida tenta evidenciar o quanto de arte existe no ofício de escrever sobre música com raciocínio crítico, argumentando que, ao discorrer sobre álbuns e artistas, esses quatro críticos documentaram as transformações contínuas da música e da sociedade brasileira ao longo dos últimos 70 anos.
Almeida salienta, no entanto, o caráter de urgência da maioria dos textos. “Embora apoiados em padrões estéticos, não se pode negar que, pela urgência da produção dos textos, as análises se pautam pelas emoções trazidas com as audições. Observar os sentimentos – de entusiasmo ou rejeição – provocados pelas canções é também revelador; traz pistas das identidades do período”, observa o organizador do livro, sem deixar de assinalar do que chama de “arrefecimento” da crítica com o surgimento da internet e a demolição dos padrões tradicionais do mercado fonográfico.
A recente controvérsia deflagrada por críticas negativas do mais recente álbum de Marina Lima, “Ópera Grunkie” (2026), exemplifica como o tribunal das redes sociais, calcado na bajulação fake, pode jogar aos leões críticos que ousam desafinar o coro dos falsos contentes.
Os perfis dos quatro críticos valorizam o livro e ajudam o leitor a entender a natureza dos textos reproduzidos em “Meu odiado crítico”.
No perfil “Mil rosas roubadas”, Miguel de Almeida repõe em pauta os exageros de Ezequiel Neves, crítico que se tornou personagem folclórico do universo pop roqueiro e que, no exercício do jornalismo musical, muitas vezes usou o deboche como arma corrosiva das críticas passionais que publicava em veículos mais abertos aos delírios de Zeca Jagger (pseudônimo de Neves), capaz de resenhar um livro inexistente (inventado por ele com toda riqueza sórdida de detalhes) e sempre pronto a apontar o dedo para um figurão intocável da MPB, como Caetano Veloso.
No texto “De goleiro a maestro”, o organizador do livro perfila Júlio Medaglia, outro profissional movido a paixões. Músico de formação erudita, Medaglia também transitou pelo universo da música popular (sobre a qual sempre discorreu com rigor extremado) e escreveu mais ensaios – como o antológico “Balanço da bossa”, publicado em dezembro de 1966 e reproduzido no livro – do que críticas escritas no calor do momento de lançamento de um disco ou show.
No perfil “Entidade carioca”, o foco de Miguel de Almeida recai sobre Sérgio Cabral, jornalista que se tornou compositor, parceiro de Rildo Hora em sambas como “Visgo de jaca” (1974) e “Os meninos da Mangueira” (1976). Crítico nacionalista, ferrenho defensor das tradições do samba, Cabral teve o mérito – enfatiza o perfil – de jogar luz na imprensa cultural sobre as obras dos pioneiros bambas do samba do Rio de Janeiro (RJ), alguns vindos do morro, território marginalizado pelas elites cariocas donatárias dos espaços nos suplementos culturais.
Entre os textos de Cabral reproduzidos no livro, há perfis biográficos de João da Baiana (1887 – 1974) e de Paulo Benjamim de Oliveira (1901 – 1949), o Paulo da Portela, pioneiro sambista da escola nascida de bloco do qual Paulo foi um dos fundadores em 1923 – ambos publicados em 1964 – que ajudam a montar um painel social da história do samba.
Por fim, o livro “Meu odiado crítico” traz o perfil de Zuza Homem de Mello, crítico e pesquisador que se tornou referência no jornalismo musical do Brasil. O título do perfil de Zuza, “Amoroso”, traduz o caráter com que o crítico abordou o jazz e a música instrumental, focos primordiais dos textos do biógrafo de João Gilberto (1931 – 2019), de quem Zuza foi amigo.
No universo da música popular, Zuza evidenciou a importância do cantor Orlando Silva (1915 – 1978) na formação musical de João Gilberto e enfatizou a alta qualidade das melodias dos sambas-canção do compositor Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974), geralmente mais exaltados pelas letras repletas de amarguras.
No todo, o livro “Meu odiado crítico” direciona olhar amoroso para profissão exercida em campo minado – qualquer desatenção no texto de uma crítica, faça não! Pode ser a gota d'água que provocará a erupção do represado ódio do artista em relação ao crítico – e, ainda assim, importante para a documentação de uma história musical e social que se faz no dia-a-dia, a cada lançamento de álbum, a cada estreia de show.
O livro chega em momento oportuno em que a crítica musical respira por aparelhos em mundo digital em que apontar falhas no disco de um artista pode fazer do crítico o alvo preferencial do hate dos seguidores desse artista. Por isso mesmo, amado ou odiado, um crítico de música é espécie quase em extinção...
Capa do livro 'Meu odiado crítico', organizado por Miguel de Almeida
Divulgação