VÍDEO: Onças-pintadas são gravadas ‘miando’ na natureza 1ª vez; veja
09/02/2026
(Foto: Reprodução) O esturro potente da onça-pintada, capaz de ser ouvido a quilômetros de distância, é a marca registrada do maior felino das Américas. Mas, pela primeira vez na história, cientistas captaram um som bem diferente e delicado na natureza: o miado.
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O registro inédito foi feito no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e descrito em um artigo publicado recentemente na revista científica Behaviour. As imagens e o áudio são fruto de uma parceria entre pesquisadores da Universidade de Salford (Reino Unido), Projeto Onças do Iguaçu, Atlantic Technological University e WWF-Brasil.
Até então, sabia-se que esses felinos esturravam para demarcação de território e atração de parceiros. O miado já havia sido presenciado apenas em cativeiro, nunca na vida livre. O flagrante, feito por meio de armadilhas fotográficas (camera traps), permitiu estudar um comportamento materno nunca antes documentado em ambiente selvagem.
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'Falando' a língua do filhote
Onças-pintadas são gravadas ‘miando’ na natureza 1ª vez; veja
Reproduçãp / Projeto Onças do Iguaçu
A bióloga e responsável técnica de pesquisa do Projeto Onças do Iguaçu, Vania Foster, explica que o miado é uma estratégia fundamental de sobrevivência e conexão.
“O miado é uma importante forma de comunicação entre a fêmea e seus filhotes, sendo utilizado, por exemplo, para localizá-los quando a fêmea se afasta para caçar e retorna à toca. Como os filhotes ainda não possuem a estrutura laríngea completamente desenvolvida, eles não são capazes de esturrar - vocalização típica dos adultos. Dessa forma, a fêmea modula sua vocalização para um miado, adaptando-se à capacidade vocal dos filhotes, como uma forma de ‘falar a mesma linguagem’ e facilitar a comunicação entre eles”, afirma Vania.
Estratégia contra o infanticídio
Além da limitação física dos filhotes, há um motivo de segurança para essa troca de sons mais baixos. Segundo a pesquisadora, o esturro poderia atrair machos para o local, o que representa um perigo mortal para as crias.
Onças-pintadas são gravadas ‘miando’ na natureza 1ª vez; veja
Reprodução/ Projeto Onças do iguaçu
Machos de onça-pintada costumam matar filhotes de outros pais para que a fêmea entre no cio novamente e possa gerar descendentes dele.
Esse risco de infanticídio ajuda a explicar a evolução desse comportamento discreto: a fêmea precisa se comunicar com o filhote escondido sem alertar os "inimigos".
Complexidade sonora
Os vídeos captados no Paraná foram enviados para Marina Duarte, especialista em bioacústica na Universidade de Salford. A análise revelou que a comunicação entre mãe e filhote é mais complexa do que se imaginava.
“Como especialista em comunicação animal eu fiquei surpresa em ver que cada miado era composto por formações acústicas distintas, portanto, diferentes entre si. Isto demonstra o quão vasto é o repertório vocal destes felinos e que a gente sabe muito pouco sobre isso”, analisa Marina.
Semelhança com humanos
O estudo também traçou um paralelo curioso com o comportamento humano. O jeito como a onça modula a voz para falar com o filhote lembra o hábito do baby talk (ou infant-directed speech) — aquela voz mais suave e aguda que adultos usam para conversar com bebês.
Nos humanos, essa prática ajuda a chamar a atenção da criança e reduzir o estresse. Embora os objetivos biológicos possam ser distintos, a semelhança na estratégia acústica desperta fascínio nos cientistas.
Para Vania Foster, a descoberta reforça o quanto ainda temos a aprender sobre a biodiversidade brasileira.
“(Surpreende que) uma das espécies de felinos mais estudadas entre todas ainda tem tantas peculiaridades em seu comportamento, principalmente ao que se refere ao comportamento materno”, finaliza.
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