‘Vivia entorpecido por açúcar’: o processo de emagrecimento do influenciador Julio Mamute após chegar aos 300 kg
08/01/2026
(Foto: Reprodução) ‘Vivia entorpecido por açúcar’: o processo de emagrecimento do influenciador Julio Mamute
Julio Mamute, 35, não se tornou conhecido nas redes sociais por falar de corrida. Quando começou a publicar vídeos, em janeiro de 2025, a ideia era registrar um processo de emagrecimento que ele mesmo não sabia se daria certo. O perfil cresceu rápido. Vieram os seguidores, as visualizações, os comentários. Mas, fora da tela, o corpo continuava impondo limites.
Poucos anos antes, Julio ultrapassara os 300 quilos. Hoje, pesa 200. A meta, ele conta ao g1, não é chegar a um peso mínimo para fazer cirurgia.
“Não quero fazer bariátrica, quero mudar meus hábitos. Sei que, se eu não tratar a compulsão alimentar, não vai adiantar nada”, diz.
O ganho de peso e a compulsão
O influenciador Julio Mamute participou da última Corrida de São Silvestre.
Arquivo Pessoal
Julio começou a engordar ainda na adolescência, por volta dos 12 anos. Não associa a obesidade à infância nem a traumas específicos. “Não fui uma criança obesa. Meus pais não eram obesos. Não tem uma causa única para apontar”, diz.
O peso aumentou de forma progressiva ao longo da vida adulta, em meio a rotinas sem horário fixo, noites viradas trabalhando e alimentação desorganizada. Com o tempo, comer deixou de ser uma decisão consciente.
“A obesidade é um pântano. Você vai afundando devagar. Chega um momento em que não há mais escolha. O açúcar vira vício. Eu vivia entorpecido por açúcar, comia pelo vício, não por fome”, afirma.
Segundo ele, depois de certo ponto, o corpo passa a responder menos. “Você sabe exatamente o que deveria fazer. O problema não é saber. É conseguir.”
Isolamento e perda de autonomia
Durante a pandemia de coronavírus, ele morava em Recife, a poucos metros da praia de Boa Viagem. Mesmo assim, evitava abrir a janela. “Eu não queria ver a praia. Não queria ver ninguém. Eu só existia dentro daquele quarto”, conta.
Com mais de 300 quilos, a mobilidade se deteriorou rapidamente. Entrar no carro exigia esforço; sair, às vezes, era impossível. Caminhar longas distâncias deixou de ser uma opção e, em alguns períodos, ele precisou usar muletas.
Tarefas simples do dia a dia passaram a depender da ajuda de outras pessoas. “Teve fase em que eu não conseguia sair do carro sozinho. Não conseguia abrir a porta”, relata.
Em um aniversário, Julio passou o dia sozinho em casa. Na mesma data, nasceu seu primeiro sobrinho. Ele chegou a comprar um presente, mas não conseguiu sair para entregar. Precisou ligar para a irmã e pedir que ela buscasse o brinquedo.
“Ali eu me senti inútil. Pensei: ‘Se não consigo entregar um presente, como vou brincar com um filho meu?’”, diz.
Julio e o sobrinho, que nasceu no dia de seu aniversário
Arquivo Pessoal
Tudo o que já tinha tentado
Antes de iniciar uma perda de peso mais consistente, Julio passou por praticamente todas as estratégias disponíveis. Usou medicamentos para emagrecimento, como Ozempic, Saxenda e Mounjaro —alguns importados antes da liberação no Brasil.
“Eu engordei usando tudo isso”, afirma.
Em 2021, colocou um balão gástrico. Mesmo com o dispositivo e o uso simultâneo de semaglutida, engordou cerca de 40 quilos. O balão acabou se rompendo e precisou ser retirado às pressas.
“Quando a compulsão está muito instalada, não é fome. Dá para engordar com qualquer ferramenta”, diz.
Depois da retirada do balão, o peso voltou a subir. “Cada tentativa frustrada te afunda um pouco mais. É como areia movediça”, resume.
Julio Mamute chegou a pesar 300 quilos
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Um começo possível
Julio sabia que não poderia iniciar caminhadas nem exercícios de impacto. Procurou algo que não machucasse o corpo. Tentou hidroginástica, até se fixar na natação.
“A piscina foi o primeiro lugar em que eu consegui me mexer sem dor”, afirma.
Ele atribui à natação a perda dos primeiros 90 a 100 quilos. O processo, no entanto, não foi contínuo. Em 2024, após a morte do pai, voltou a ganhar peso. “Eu me sabotei de novo”, admite.
Ainda assim, retomou. Cada número perdido na balança ele multiplica em alimentos doados.
Em janeiro de 2025, decidiu registrar o cotidiano nas redes sociais. O perfil cresceu rapidamente e passou a somar cerca de 3 milhões de seguidores. A exposição trouxe alcance, mas não eliminou o esforço diário.
“Internet não emagrece ninguém”, diz.
São Silvestre foi sonho realizado para Julio
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A São Silvestre entra no radar
Depois de se mudar de Recife para São Paulo, a São Silvestre voltou ao campo das possibilidades.
“Eu nunca tinha corrido 15 quilômetros na vida”, conta. A ideia de participar da prova surgiu de um seguidor. “Nunca tinha passado na minha cabeça, até que começou a passar”.
A decisão não foi consenso. Julio ouviu de muita gente que não deveria tentar. O receio principal era o impacto sobre um corpo ainda muito pesado, com risco aumentado de sobrecarga articular, lesões nos pés e nos joelhos, além de eventos cardiovasculares. “Muita gente falou: ‘você está doido, não vai’”, conta.
Ele próprio tinha consciência dos limites. “Uma coisa é achar que dá certo, outra é sentir a pressão no corpo.” Antes de largar, fez exames cardiológicos e decidiu que só seguiria se fosse andando, com pausas frequentes e sem qualquer meta de tempo.
No quilômetro 7,5, pensou seriamente em desistir. A dor nos pés era intensa. O cansaço se acumulava. Ele deitou no asfalto e mandou mensagem para a irmã dizendo que talvez não conseguisse continuar.
“Na minha cabeça, ter feito metade do trajeto era suficiente. Já era uma conquista. Minha mente dizia ‘pare, ninguém se importa; já deu’”, relata.
Pouco depois, recebeu um vídeo do sobrinho incentivando que seguisse. Chorou. Trocou a meia. Levantou.
Arquivo Pessoal
Até onde deu
A maior parte do percurso foi feita andando. Na subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o esforço aumentou. Julio parava, bebia água, retomava.
Um ultramaratonista largou a própria prova e passou a caminhar com ele por um trecho. Pessoas que acompanhavam a transmissão ao vivo se aproximavam. “Umas 5 mil mãos bateram nas minhas costas, foi enlouquecedor”, ele relembra.
Nos metros finais, ao avistar a linha de chegada, conseguiu trotar por alguns segundos. Chegou depois de seis horas. O pórtico já estava sendo desmontado. “Não recebi medalha, mas não foi um problema. Foi uma experiência incrível”, diz.
Hoje, Julio mantém uma rotina com natação, musculação e caminhadas. O peso ainda oscila. A compulsão não desapareceu.
“Tem dia que eu ganho. Tem dia que eu perco. Isso não some. É um dia de cada vez.”
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